O medo por trás do isolamento

O momento que vivemos é intenso por vários motivos. No entanto, quero entrar no tema relacionado ao sentimento envolvido ao isolamento pelo qual passamos há algumas semanas.

Sim, a doença causada pelo vírus é importante e precisamos aprender os conceitos básicos de auto cuidado para evitar qualquer problema maior. Porém, a sensação que precisamos entender também é o medo causado pela doença e pelo isolamento. Na realidade, o que vivemos é um mix de sentimentos desencadeados pela grande mudança. No final, vivemos um ciclo de medo do novo e como falo frequentemente, todos os medos terminam no medo da morte.

Ao olhar para esse processo todo, passamos por 3 fases com sentimentos diferentes, mas todas elas relacionadas a um mesmo alicerce. O primeiro momento é ligado ao sentimento de desespero despertado pelo medo do que poderá acontecer, por isso tudo que está ligado a vida de maneira direta passa a ser uma prioridade. Aqui as pessoas começam a se desesperar com pensamentos como “pode faltar comida e vou passar fome” ou mesmo “e se acabar o papel higiênico ou o álcool”. Por isso, no início os supermercados lotaram e as prateleiras chegaram a ficar vazias.

No entanto, percebemos agora que não faltou, nem vai faltar comida, ninguém vai morrer por conta da fome, ou seja, não precisava ter esvaziado as prateleiras ou mesmo lotados os supermercados. Já fica aqui um grande aprendizado com esse processo. No segundo instante, as pessoas começam a se identificar com o próximo, isto é, eu estou fechado em casa há alguns dias, mas meus vizinhos estão na mesma. Todos vivem esse ambiente de isolamento: “estamos todos no mesmo barco”. Assim, o medo sofre uma camuflagem e acontece como se fosse um criança com medo de escuro que ao ter os pais ali do lado, fica mais calma. Começam aparecer então até mesmo piadas, memes, música na sacada, protestos, como se momentaneamente as pessoas deixassem o real problema de lado, porque ficam mais “calmas”. Contudo, o medo está ganhando cada vez mais tração pra voltar e impactar de maneira muito mais intensa na terceira fase.

Depois de mais alguns dias, o sentimento de “brincadeira” vai passar, porque os dias se prolongam e nada muda, todos continuam isolados. Agora, o auto questionamento vai aparecer e o medo retorna com força total. No entanto, agora o medo vem amarrado a um sentimento de solidão, distância das pessoas queridas, um verdadeiro medo de ficar sozinho e morrer. Aqui até fatos como: pessoas com sintomas deixam de procurar ajuda por existir a possibilidade de ir a um hospital e ficar internada e se afastar ainda mais das pessoas que ama. Ou seja, a solidão baseada no medo vai dominar a mente das população com uma força enorme capaz de deixar você refém dos seu próprios sentimentos.

Se você não conhecer essa evolução e não se preparar, pode ter certeza que viverá esse ciclo. Por isso, a importância desse passo a passo. E agora vem o mais importante: existe uma forma de desconstruir isso: é através da rotina. Manter horários, atividades, compromissos é essencial para desarmar esse ciclo. Não encare esse momento como uma mini férias, tenha sua agenda, tire o pijama, encare seus dias como dias normais, com horário para acordar, praticar sua atividade física, meditar, trabalhar, dormir…Mude apenas o ecossistema, que agora não será mais sua cidade toda ou o mundo todo, mas sim a sua casa. Coloque em prática pra não sofrer a dor mais profunda que pode existir que é aquela construída pela sua mente contra você.

No vídeo abaixo falo sobre esse tema complementando todos os assuntos discutidos aqui:

Medo e isolamento – como o isolamento faz você passar por todas as 3 fases

Guilherme Ferreira Takassi

Médico formado pela Universidade Federal de São Paulo e fundador do Instituto Takassi Falcão. Desenvolve um trabalho focado em saúde de alta performance baseado em dois pilares: corpo físico e mente.

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